Corra como um coelho: clipping

Caderno 2, O Estado de S. Paulo, 12/11/2010

Caderno 2 - O estado de S. Paulo - Corra como um coelho

 

Ilustrada, Folha de S.Paulo, 28/10/2010

Ilustrada - Folha de S.Paulo - Corra como um coelho

 

FESTIVALE, 17/09/2009

O SIMULACRO SATÍRICO DE CORRA COMO UM COELHO TEM COMO GRANDE TRUNFO A TRINCA DOS EXCELENTES ATORES-CRIADORES

por Alexandre Mate
Ao adentrar na platéia do Teatro Municipal de São José dos Campos, com o cenário já iluminado, o espectador tende a levar um choque: em cena um grande cenário de gabinete. Construção rara nos dias de hoje, sobretudo por conta de ásperos serem os tempos que nos é dado viver… Parte da grana que entra para o grupo, e que provavelmente, não deve ser muita deve destinar-se ao transporte do material de cena.
Ao deparar-se com aquele material cenográfico – e é inevitável – a imaginação corre solta, criando hipóteses de que, provavelmente, o que se assistirá deva corresponder a um drama clássico. Antes de o espetáculo começar, vê-se uma mulher caída em cena. Duas pistas: o cenário naturalista e a mulher, vestida de vermelho, caída. O foco encontra-se na cena, mas o espectador é surpreendido por dois atores que, aparentemente bêbados, irrompem da plateia. No palco, os dois atores digladiam-se por meio de trombadas. Naquele cenário e com os figurinos realistas alguma coisa afigura-se fora de foco… Primeiro desmonte das hipóteses iniciais. A falta de sincronia entre as partes, àquela altura, remetia ao título da obra…
Levantada do chão, a mulher de vermelho e de cabelo à la Chanel, começa a falar. Fala confusa, repetitiva, sem revelar algo de si ou daquele contexto.
A atriz Carolina Bianchi é fantástica, compõe sua personagem de modo tão excêntrico (abrigando a duplicidade compreendida entre o inusitado comportamental e a tipologia de palhaço), que ao cabo de pouco tempo, parece desnecessário saber quem ela representa. O carisma e domínio da atriz intentam o jogo e a percepção segundo a qual, parafraseando verso de música: se verá que tudo é mentira. A mulher de vermelho não é personagem, é uma figura. Do mesmo modo os dois “trombetantes-atores”, também não são personagens, são figuras lúdicas. Ao se formular tal hipótese, desmontando todas as outras, o espetáculo se redimensiona, transforma-se em jogo de advinha…
Do estoicismo das pistas iniciais o espetáculo (construído, intuído em nossa cabeça) migra para o reinado do hedonismo e do prazer da diversão, do entretenimento. Trata-se de um exercício de entretenimento contando com a verve dos três intérpretes. Divorciado de outras preocupações, o espetáculo escorre como água para chocolate. Não há o que entender, mas o que se permitir.
No jogo instituído pelos atores e pela diretora Fernanda Camargo, ocorre um jogo sem que se saiba (e passa a não importar) como as peças se movimentam. Sabe-se que essas peças-figuras têm uma lógica não cartesiana, que se apresentam a partir de solos (corporais e falados, corporais, ou falados…) e que suas intervenções, pautadas pela experimentação performática assemelham-se enormemente nos chamados números de cortina do (pouco conhecido) teatro de revista.
Na obra, para além dos mencionados filme de David Lynch, Lewis Carrol, Dorothy Parker, pode-se perceber a suicida do filme Delicatessen (1991), de Dona Zero, personagem criada por Elmer Rice para o texto A máquina de somar (1922-23) e tantos outros efeitos-imagens que formam a colcha de retalhos que caracteriza a obra.
Do ponto de vista dramatúrgico, é bastante provável que a partitura do espetáculo seja fechada, mas os atores, por sua capacidade de jogo, conseguem transcendê-la e quase dar a entender que improvisam a todo o momento. Nesse particular, o mérito é da diretora e dos três intérpretes.

FESTIVALE

A edição de viver: sentidos do descontrole em cena

por Valmir Santos
Em plena ditadura da acumulação – poupar, lucrar, comprar -, a Companhia dos Outros propõe uma paródia ferina e bem humorada dos tempos que correm. Os jovens criadores egressos dos palcos/laboratórios da USP parecem promover uma reciclagem daquilo tudo que, em tese, seria descartado em cena. Antes, a hipérbole é o veículo de linguagem para uma dilatação narrativa que dá dê ombros e faz do dissenso a nova desordem.
Com os primeiros resultados da pesquisa apresentados no final de 2008, sob orientação dos professores Antônio Araújo (diretor do Teatro da Vertigem) e José Fernando Azevedo (do Teatro de Narradores), “Corra como um Coelho” dispõe figuras e situações pelo avesso, de ponta-cabeça, distorcidas e ainda assim plausíveis na sua síncope do cotidiano febril de quem vive nos grandes centros urbanos. Sob o império da fragmentação/reiteração dramatúrgica, as interpretações e o espaço cênico evidenciam esse desmanche de sentimentos em relação ao outro, afetos e desafetos tênues.
Uma moça clonada dos escritos de Dorothy Parker, fatal em vestido vermelho, e dois estranhos rapazes, um deles forasteiro no pedaço – a sugerir um vetusto e kitsch salão palaciano -, relacionam-se como se cada um mantivesse resguardo em uma bolha.
É do choque dessas ilhas que se esboça um fiapo de enredo estilhaçado, mediado pelos tipos carismáticos do trio de atores e suas interfaces aos borbotões precipitadas sobre o espectador instado à excitação frenética dos corpos, palavras e imagens de impacto poético bastante raro e estranho.
Essas sequências aparentemente desconexas, num primeiro momento, evoluem para uma trama segundo a construção de cada espectador, que pode ver ali um triângulo amoroso corroborado por uma típica cena de piquenique nas comédias românticas do cinema, apesar de dissolvida por uma pancadaria ou outra.
Dois homens espancam-se por uma musa equidistante ou pela disputa de território, sabe-se lá. Tudo é muito visceral, a começar pela luta de Pedro Cameron e Tomás Decina, um embate físico que às vezes parece fugir completamente ao controle de quem está sob o palco e, tentamos acreditar, deveria transmitir mais domínio diante da platéia, absorta.
Mas domínio e equilíbrio são imagens que passam ao largo. O diálogo é outro, feito de ruídos, estranhamentos, inversões de todos os vetores, como antevemos desde o saguão de entrada no vídeo em que os próprios atores disparam pelas ruas da urbe num documentário disfarçado de ficção, ou ao contrário.
Idem para a moça rodopiante de Carolina Bianchi, sua beleza estonteante, tresloucada em melancolia agridoce, a tendência suicida de araque, o masoquismo atávico de quem gosta de pensar que é apenas um tapete de urso, encorpando a voz ficcional de Dorothy Parker.
Estamos diante de um teatro em que a idiotice se intromete como material poético, uma licença algo absurda. A metalinguagem do programa de auditório, do show da vida diante da claque, não quer dizer apenas instrumentalização para a crítica à sociedade liquefeita. Antes, a diretor Fernanda Camargo e a equipe com quem trabalhou em colaboração se apropriam dessas raias da arte (o teatro, a dança, o cinema, a televisão, a literatura, as artes visuais, a música) e constroem sentidos os mais díspares nesse modus operandi que não deixa de ser, em si, um exercício obsessivo de acumulação até o limite da saturação.
Aquela saturação que, findo o espetáculo, nos acompanha de perto com a sensação coeditada de que há um “delay” entre a velocidade lá fora, por meio da qual somos abduzidos na irrealidade cotidiana, feito um clipe, e o descompasso com os porquês que efetivamente nos movem, mas nos vemos estanques. Uma sedução crepuscular entre o que é paisagem humana e o que não é.
Em seus jogos e joguetes tragicômicos que lembram algo da dramaturgia e da encenação do argentino Rafael Spregelburd e seu grupo El Patrón Vazquez, a Companhia dos Outros concebe um rizoma próprio que lhe permite flutuar por camadas tão delicadas e ao mesmo tempo perigosas diante da voragem desse “Corra como um Coelho”. Felizmente, a mediação teatral é mantida à espreita, indevassável, sem sucumbir ao índex pós-moderno para fazer pose de. Antes, nos faz envolve com o embaralhar de códigos e instiga a meditar sobre a urgência do desaceleramento de cuca para se ir mais longe.

O FENTEPP – 23/08/2009

Corra como um Coelho expõe no palco o insólito que se instaurou na vida cotidiana do homem contemporâneo

Por Gabriela Mellão

O homem da contemporaneidade perdeu as particularidades que faziam dele um ser único e insubstituível. De tanto ser bombardeado pelos valores distorcidos de sua cultura, desumanizou-se. Está muito ocupado com suas obrigações para investir em a si próprio. Precisa arrumar uma maneira de ser feliz, de ter dinheiro, ser popular, estar em forma, realizar-se profissionalmente, fazer o bem para a sociedade, constituir família, plantar árvores, ser generoso e se divertir. A lista infinita de cobranças desviam-no de sua essência, abrindo espaço para o insólito se instaurar na loucura deste viver. E assim, quase naturalmente, o absurdo se impõe na vida cotidiana.
O espetáculo Corra como um Coelho, da cia. dos Outros, expõe no palco o que há de surrealista no dia-a-dia das relações humanas da atualidade. A peça acontece num casa estranha, habitada por bichos empalhados, móveis obsoletos e 3 personagens que parecem estar ali por obra do acaso: uma mulher automatizada com tendências suicidas e dois homens infantilizados – um se dedica a contar histórias sem nenhuma importância, o outro é um vaqueiro bastante particular, usa roupa apertada, tem tique no rosto e samba no pé. Os três são ridículos, surgem em aparições absurdas, proclamam discursos medíocres ou limitam-se a executar silenciosamente suas inexplicáveis ações.
Corra como um Coelho faz um retrato paródico da sociedade de hoje, composta por pessoas que fogem do ato de refletir. Ocupam-se com qualquer coisa. Empanturram-se de atividades insignificantes ou investem no poder verborrágico da fala. Alguns o fazem de maneira consciente, outros inconscientemente. Todos se entopem de ações ou palavras, compartilhando da mesma busca desesperada de preencher vazios existenciais.
O espetáculo criado em 2008 contou com a orientação do diretor do Teatro da Vertigem de Antonio Araújo, professor da ECA e com José Fernando de Azevedo, outro professor que é também dramaturgo e diretor da Cia. Teatro de Narradores (cujo espetáculo Casa de Bonecas, adaptação da obra homônima de Henrik Ibsen, será apresentado dia 25 no Fentepp). Além de buscar inspiração no absurdo do mundo real, o grupo se serviu do clima surrealista dos filmes de David Lynch, do non sense da obra de Lewis Carrol, dos contos de humor negro da escritora Dorothy Parker, da estrutura do cinema mudo e das minisséries americanas.
Como conseqüência a essas múltiplas referências, Corra como um Coelho experimenta vários caminhos estéticos e temáticos, sem se fechar em nenhum. A confusão é intencional e gera questionamentos permanentes no espectador. Ele se pergunta o que realmente se passa em cena, como é possível existir uma peça sem lógica alguma e quem são os três personagens, os quais, desafiando padrões do teatro tradicional e da vida, surgem no palco, desaparecem e depois voltam a aparecer. Eles dançam e cantam músicas de diversos estilos. Atiram, são baleados, morrem e ressuscitam. Com champagne, também matam a sede de seus bichos empalhados e esquecem suas frustrações.
A comédia Corra como um Coelho tem a qualidade rara de combinar humor e reflexão. Sua trama faz mais do que divertir, tem o poder de inquietar sua platéia, convidando-a a eliminar idéias pré-concebidas sobre a arte do palco e do existir.

 

 

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