A pior banda do mundo: clipping

O Estado de São Paulo, 14/11/2012

Caderno 2 - Estadao - A pior banda do mundo

Peça escolhida pelo jornal O Estado de S. Paulo como uma das melhores de 2012.

Caderno 2 - Estadao - A pior banda do mundo

Ilustrada, Folha de S.Paulo, 2/11/2012

Ilustrada - A pior banda do mundo

XX Fentepp – 15/ 09/ 2013
A pior peça do mundo?

por Kil Abreu

A Companhia dos Outros, de São Paulo, vive em A pior banda do mundo, inspirada nos quadrinhos do português José Carlos Fernandes, uma aventura de risco, peito aberto aos frutos e consequên- cias de um projeto cuja radicalidade da linguagem intenciona, menos que representar o que acon- tece nos quadrinhos, se avizinhar de um olhar cínico e recorrente, que olha para a existência como fracasso iminente.
Tudo acontece num tempo e espaço inespecíficos, em que um grupo de músicos medíocres, de meio expediente, passa uns tantos anos ensaiando, até o momento em que finalmente surge a oportunidade para uma apresentação. Leituras mais apressadas certamente veriam no quadro as agruras existenciais dos que insistem a vida inteira em um caminho que leva do nada para lugar nenhum. Mas, no espetáculo não é bem assim. Ou não é apenas assim.
O que a coleção de cenas invoca, nas bordas do nonsense, é o sentimento de uma bad trip de época, um pesadelo estranho e de contorno excêntrico em que figuram seres humanos tão alinha- dos à ordem do mundo que acabam, paradoxalmente, parecendo de outro planeta: uma moça cujo trabalho em uma repartição pública é fazer a conferência de pequenos objetos. Ou o sujeito que é capaz de lembrar não só todas as Leis como também o imaginário bom mocista do grupo de escoteiros, ainda que isto seja letra morta, como um quadro empoeirado que envelhece inofensiva- mente na parede. Ou, ainda, uma garota que fala uma língua estranha e que sonhara ser patina- dora, até sofrer o trauma de uma queda em público.
Estes todos, no entanto, são elementos de um mosaico aparentemente aleatório em que outras centenas de referências se dão a ver: do cenário de almoxarifado forrado com paisagem de cartão postal a coreografias de gosto propositalmente duvidoso, mas executadas com energia insuspeita, a colocar a situação (uma espécie de comentário cênico, um aparte, uma nota de pé de página) no rol das estranhices deliberadas que a forma do espetáculo vai assimilando em uma inflação extravagante de significantes os quais estão simplesmente lá, pedindo uma liga que a narrativa não parece preocupada em operar.
O interessante na proposta cênica da Cia. dos outros é o precipício auto-construído na beira do qual o grupo se posta. É um espetáculo caprichoso, narcísico, que dura cerca de duas horas defend- endo situações cifradas, em uma partitura de humor amargo e nem sempre fácil de acessar. Na sua desmedida, o desconcerto causa espanto e umas tantas gargalhadas, até que nos leve a um final em que as almas deixam as salas ou satisfeitas por terem rido um bocado, ou aborrecidas porque se recusaram a embarcar na viagem, ou remexidas em alguma melancolia, que a vida não é docinho de coco e periga que lá pelas tantas talvez encontremos paralelos entre as historias daqueles seres patéticos e as nossas.
Na saída da sessão em que estive o rapaz que sentava à frente comentou: acho que é a pior peça do mundo. Os outros dois, rindo, discordaram – o que aponta um desacordo que certamente inter- essa. Do ponto de vista do valor o espetáculo não pode ser tomado como bom ou ruim – se isso tivesse algum interesse. É a inquietação legítima, com pertinência ao espírito da época, de um grupo de artistas, olhando e nos fazendo olhar nossa posição no correr dos dias. Como já dissemos antes, é pretensioso. Mas, a arte que interessa nunca se recusou a alguma dose de aventurosa pretensão.

Fonte: Assessoria de Imprensa XX FENTEPP

 

 

mayorlucas.wordpress – 20/11/2012

A pior banda do mundo

por Lucas Mayor

Milan Kundera dizia que sua ambição de vida era unir a seriedade máxima da questão com a leveza máxima da forma. A Cia. dos Outros responde ao programa de Kundera com A pior banda do mundo. A narrativa dramática aponta para o fracasso de uma banda que ensaia, todos os dias, por dez anos, sem jamais ter se apresentado. O fracasso, portanto, é um dos temas que move a montagem. Um tema dos mais sérios, aparentemente, já que toda criação, todo projeto de vida e existência lida, em algum nível, eu diria em todos os níveis, com a iminência do fracasso (viver é fracassar). A dramatur- gia de Carolina Bianchi é um mashup violentamente cômico, altamente refinado e estruturalmente fascinante. As elipses (espaciais e temporais) e as torções dramatúrgicas dialogam intimamente com o cinema, a literatura, os quadrinhos (a inspiração inicial do grupo partiu daí) e os videoclipes perdi- dos em fitas VHS. A peça articula-se através de unidades rítmicas, intervalos de reminiscências e apartes biográficos das personagens, o que remonta diretamente a um formato próximo de um quebra-cabeça sendo montado no tapete da sala de um garoto setentista e levemente nostálgico, apaixonado por coleções e amante de Salinger. O depuramento cênico é a um só tempo preciso e falsamente despojado, fazendo com que as cenas respirem e existam de maneira particular e com tempos muito singulares, conferindo assim à iluminação e à trilha um território ocupado por geogra- fias poéticas que não se restringem a ser signos ilustrativos. A excentricidade (e as próprias situações) das personagens nos faz pensar numa estética do absurdo, o que não corresponde com os desdo- bramentos afetivos e íntimos que a peça alcança repetidamente. O absurdo, no caso dessa monta- gem, é a dimensão da imaginação como um valor em si, tal como Kundera acentua ao se referir ao processo de fusão entre sonho e realidade presente na obra de Kafka. O cômico é sempre literal, diria Deleuze. A melancolia que atravessa o palco é comicamente lancinante e subjetivamente derrisória. Não há como não pensar nas tiras de Chris Ware, nas personagens de Wes Anderson, nos diálogos dos irmãos Coen, nas one-liners de Woody Allen, nas pequenas notas espirituosas de Dorothy Parker, nos seriados norte-americanos esquecidos de décadas passadas, na voz de Nina Simone e na vida de Joe Gould. O plantel de atores poderia ter saído de uma esquete dos irmãos Marx, de uma gag do Monty Python, de um pequeno conto de S. J. Perelman, de um dos cômodos num filme de Jacques Tati. A montagem é promiscuamente hábil no que se refere ao trânsito livre entre diferentes gêneros, respondendo a cada um deles com acuidade e esmero invejáveis.
O que geralmente distingue um autor de um mero reprodutor é a capacidade de criar mundos. A Cia. dos Outros claramente faz parte do primeiro time. Certamente a peça não é a revelação do ano por esse motivo. A pior banda do mundo é incontornável e, insisto, a revelação teatral do ano porque entendeu que a melhor maneira de falar sobre a condição humana é pela via do riso. Um riso à maneira de Cioran, David Sedaris, Lenny Bruce e Fran Lebowitz. Ainda que o riso seja delicadamente triste e insuficiente, ele existe.

 

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