Às vezes acontece de se ir ao teatro, e o teatro não vir até nós. Deixe me explicar, antes que seja tarde.

Por Natália Nolli Sasso 

Minha rotina de trabalho, entre outras atividades, inclui uma dinâmica de leitura de projetos escritos, assistência de ensaios, acompanhamento de processos criativos que estão em andamento, e – ir até o teatro. Ir ao teatro não no sentido estrito que sugere a expressão. Não se trata de me locomover até uma sala cênica ou edifício teatral, ou centro cultural, ou sala de ensaio, ou rua, ou ainda cafés, espaços alternativos, casas ocupadas, etc. Ir ao teatro, neste meu modo dizer aqui, tem a ver com uma predisposição à experiência com esta arte que o teatro é.

Acontece de ser uma conversa com algum criador, em alguns casos; de ser uma leitura de texto teatral inédito, em outros; de fazer um estudo de obra a respeito de alguma questão específica da cena teatral; ler um esboço de projeto de encenação, pedido de algum amigo ou colega da área; e pode acontecer de ser estritamente uma ida até um determinado teatro também para uma visita técnica ou assistir a uma peça; e ainda pode ser um pensamento vagando na rede preguiçosa do domingo a tarde; ou a produção de um texto para publicação (como esta), ou para uma revista, ou tramar um texto de curadoria para um programa impresso; ver vídeos de peças em meu computador de trabalho; ler uma crítica escrita por alguém em algum veículo… enfim, a lista é longa, e o caminho nem sempre é em linha reta.

Para ir até o teatro como espectadora que sou, como pesquisadora que inventei ser, como curadora ou programadora de artes performativas que exerço há mais de década, ou como curiosa, ou como amiga de alguém do elenco, ou como quem só quer uma pausa em meio a uma centena de outras coisas a fazer, eu preciso me dispor a ir também.

(E, confesso, às vezes é bom se furtar de deveres, de papeis sociais, e me fazer distraída frente a uma instalação dentro de uma galeria qualquer, ou sentada frente a uma tela gigante para ver a comédia nova, e sempre velha, de um Woody Allen, por exemplo.)
Faz parte da atenção uma dose de distração proporcional. Isto é taoísmo resumido e simplificado de tal forma que quase o empobrece. Mas é mais ou menos assim que se dão as coisas todas na vida de quem está vivo: para estar atento, para ir, para ser, é preciso uma dose daquilo que não é atenção, movimento e ser. Ou é assim que escolhi me relacionar com o teatro, partindo da premissa caótica dos contrários complementares, e sigo considerando absolutamente plausível que tenhamos e sejamos oposições para nos posicionarmos de modo sincero frente as coisas todas e conosco mesmo.

O ir ao teatro para mim tem a ver com tudo isto: predisposição, encontro, taoísmo resumido, atenção e distração, e mais um tanto de amor, de carinho, de loucura (sim, o teatro minha gente, é a arte em que loucura e lucidez se abanam e se beijam mutuamente), de dedicação. E muita curiosidade também. A curiosidade é a mãe da pesquisa, da curadoria, da vontade de entender e tecer narrativas a partir de.

Foi assim que, vestida e imbuída deste corpo-espírito que expliquei até aqui, eu entrei com ingresso numa mão, e vazio na outra, para assistir a uma sessão de “A Pior Banda do Mundo”, num domingo chuvoso, durante sua primeira temporada, realizada no verão de 2013, no palco do TUSP Maria Antônia.

Até então, eu não conhecia ninguém do elenco e ficha técnica. Não tinha a menor ideia sobre quem eram os tais artistas da Cia dos Outros, menos ainda tinha lido sinopse, resenha, projeto, ou conhecia os quadrinhos portugueses homônimos que inspiraram a peça.

E, fora isto, minha expectativa sobre o que assistiria dali a poucos minutos era quase nenhuma. Dizer nenhuma expectativa é irritante e mentiroso: sempre se espera por algo ou que algo aconteça. Mesmo no calor de fevereiro, domingo final de tarde, na companhia de minha melhor amiga que vive no interior de São Paulo e passava brevemente por aqui, mesmo que eu não tivesse ouvido sequer um comentário sobre a “A Pior banda…” havia, ao fundo, ali num lugar das despretensões e expectativas pouco esclarecidas, o desejo de que a peça fosse um bom programa para o início daquela noite de fevereiro.

Ou que não fosse um programa ruim. Que eu não me arrependesse do deslocamento, da compra dos ingressos, de ter optado por esta e não outra peça que estava em cartaz, de eu ter trocado a piscina da laje do prédio onde estava minutos antes, para sentar-me diante de um palco por quase duas horas seguidas. Que estar ali fizesse algum sentido num dia de folga de trabalho, quando eu poderia simplesmente ir a qualquer lugar que não ao teatro, e ponto.

Vou dar um salto no tempo, daqui deste presente final de 2015, para contar que esta foi apenas a primeira, dentre umas cinco ou seis vezes em que assisti este espetáculo. Foi também a primeira aproximação ao grupo paulistano que, pouco tempo depois viria a ser parte importante dos objetos de minha pesquisa acadêmica e não-acadêmica, porque pessoal e profissional também. Se é que dá para separar estas coisas todas, como querem certas convenções.

É prazeroso escrever este texto e ao mesmo tempo olhar para o início de 2013, para perceber o quanto as coisas que viriam a seguir não estavam nada prontas, dadas, tampouco projetadas. E este despojamento foi recíproco; posso afirmar isto por mim e pelos Outros. Até este primeiro encontro, vamos chamar assim, não havia nenhum esboço de aproximação de parte alguma. Éramos completamente ignorantes sobre quem era quem, quem fazia o quê, e mais adiante descobrimos até mesmo que somos bastante vizinhos de bairro (boa parte da Cia, como eu, vive na Santa Cecília, região central de São Paulo).

É gostoso olhar para esta trajetória e me surpreender com os traçados no tempo, movimentos de aproximação feitos quase que distraidamente, quase que impensadamente, mas sempre desejados.  Quando entrei no TUSP não tinha a menor ideia de que ali, naquele gesto quase casual (quase!) começava uma trajetória que hoje completa três anos, e que foi reveladora de rumos e ventos para minha relação com o teatro, sobretudo com este ir ao teatro.

Eu estava vivendo uma fase em que não bastava mais ir ao teatro. Era preciso que ele viesse até mim, como parceiros numa salsa. Há que haver o encontro, uma sincronia de pensamentos e corpos, um jeito de se acompanhar para dançar uma boa salsa sem parecer um número patético em que pessoas dançam sós e virtualmente estão ali juntas na pista, na sala, no espaço. Depois de centenas, talvez milhares de idas ao teatro eu queria mais que minha própria predisposição. Estava em busca, como uma garimpeira de cristais que remexe a imensidão das encostas e montanhas de Goiás, de um teatro que se movesse em direção a mim, ao espectador, à plateia.

Algumas peças me mostraram esta potência da mutualidade por meio de estruturas cênicas móveis, que utilizam a inclusão textual ou corporal do espectador na dramaturgia de cena, ou que o convidavam a atuar junto, em alguma medida. Outras peças haviam me mostrado encenações com aberturas e mais aberturas à entrada deste outro da cena, deste espectador vivo e ativo, seja pela via intelectual, quanto mais adiante, integral, que exigia sua presença e ação, mesmo que silenciosa. E ainda haviam outras que me entediavam, porque, a partir de meu ponto de vista, gesticulavam para ninguém, ou pressupunham um alguém quase morto, amortecido, sentado diante de uma cena que se pretendia plena, e portanto, solitária e nada solidária a ideia de uma interlocução e experiência recíproca.

Por outro lado, e se um tédio começava a me fazer recuar e diminuir minhas idas ao teatro, por outro, grupos como a Cia dos Outros, que eu descobria naquele começo de década, me avivam a vontade de ir ao teatro. Continuar este ritual de encontro, e com a aquela boa distração de quem quer ser surpreendido a partir de expectativas ainda desconhecidas.

Foi refrescante! Assistimos “A pior banda do mundo” como duas crianças que entram pela primeira em uma sala de teatro. Este sabor, esta sensação de novidade infantil pode parecer tola para alguns, e acho um mau humor tremendo reduzir isto a tolice, porque somente este frescor pode devolver a uma cansada espectadora a alegria de refazer aquilo que já há muito tempo faz, sem fazê-lo com o cansaço que vicia, que pode nublar os sentidos e a fruição, e – pior ainda – amargar a paixão e dedicação a uma arte.

Eu me dedico ao teatro desde meus 16 anos de idade. Noves fora, são mais de 20 anos indo ao teatro como profissão e ofício.

Se para você que está lendo isto parece pouco, tente entender que há milhões de lugares incríveis para se ir, de coisas maravilhosas para conhecer, e mais ainda um convite ao ócio para nos entreter, constantemente. Faltando a mutualidade do ir e vir ao teatro, com o passar do tempo ficaria para mim ou a desistência lenta e triste, de uma função que gosto de exercer; ou a amargura que faz ver tudo com um sombreado pontilhista flamenco, daqueles que pintam uma linda orla de cinza, mesmo num dia de verão, em fevereiro no Brasil. E eu entendo a amargura como um risco ruim a todo profissional, de toda e qualquer profissão.

As crises, meus caros, são inerentes aos processos de vida, e benvindas são as crises! Há riscos que se há de correr, para viver. Mas a amargura ao se fazer o que se faz pode ruir aquilo que de melhor seria o feito sem ela, ela é esta madrasta nada sincera.

Rimos durante quase duas horas assistindo à saga de um quintento de jazz pouco apto aos jogos de sucesso. Rimos felizes e tolas de uma cena que, a partir de poucos recursos audiovisuais, com iluminação simples, e trilha sonora poderosa, orientada num espaço cênico ainda frontal, com cenografia bastante simples, isenta de efeitos especiais, luxos, maquinários, artifícios, e munida de cinco criadores intérpretes muito à vontade por estarem ali, conosco, naquele final de tarde de fevereiro, quando todos poderíamos não estar ali, juntos.

E que experiência deliciosa ouvir destes atores valente e ver este texto em cena de Carolina Bianchi, essa chacota com o sucesso, o grande vilão das mentes e mentalidades deste e de todos nossos verões ocidentais!? Que prazer ver em cena um quinteto de adultos tropeçar na execução musical e na execução de tarefas simples de um cotidiano prosaico; tropeçar em relações de afeto e desejo; esboçar declarações para um amor não correspondido; fazer da situação de entregar um presente de aniversário um momento constrangedor para a existência; devolver aos gestos triviais certa beleza e inocência. Que bom ver isto em cena: nós, finalmente e jocosamente, humanos. Pequenos, imperfeitos, despreparados, um tanto desajeitados, quase que constrangidos diante da monstruosa exigência de sermos humanamente sempre fortes, rigorosos, belos, jovens e famosos. A singeleza diante da estridência do sucesso. Uma banda que é um pretexto para um quintento que sonha e ama. E que tropeça, a todo momento, em minúcias de se ser.

Dali em diante, assisti e até curei “Solos Impossíveis”, convidei o grupo para integrar a programação que co-curei na Virada Cultural de 2014, ambas ocasiões no Sesc Belenzinho, e revi “A pior banda do mundo” mais algumas vezes, para me deter em detalhes que perdi ao ir até o TUSP naquela tarde chuvosa. Para entender processos de criação e o engendramento daquela dramaturgia que, em meio a minha pesquisa, chamo de dramaturgia de acesso. É sobre acessar, talvez seja isto que resuma esta situação de encontro, de mutualidade, de quando vamos e algo vem ao nosso encontro, nos toca, nos comove, num lugar que não há passividade possível. Porque é afetuoso, e o afeto não possui mão única. Ele solicita uma condição para se dar, um conjunto de condições propícias para esta interlocução, mesmo que silenciosa, mesmo que frontal e portanto hierarquizada, ele passa por vias que só podem estar abertas.

São Paulo, outubro de 2015