Mata-me de prazer

Mata-me de prazer

Uma mulher apresenta seu estudo sobre um país que após sofrer uma série de catástrofes naturais, revela em seus habitantes um imenso sentimento de amor e liberdade sexual. A população começa a praticar sexo ininterruptamente, iniciando um processo evolutivo acelerado, provocando transformações drásticas e irreversíveis na sua linguagem e em sua aparência. O universo de acontecimentos descritos no texto começam a irromper o espaço da cena. O espetáculo tem a trilha sonora executada ao vivo.

Idealização, direção, dramaturgia e performance
Carolina Bianchi

Trilha sonora original e execução ao vivo:
Lucas Vasconcellos

Luz:
Fabrício Licursi

Som
Joana Flor

Objetos cênicos
Nelson Feitosa e Tomás Decina

Produção geral
Carolina Bianchi

Assistência de produção
Mariana Mantovani

Fotos:
Caroline Valansi, Felipe Stucchi, Murillo Basso e Ricardo Sêco.

Apoio: Oficina Cultural Oswald de Andrade, Cia. Olga Roriz (PT) e Espaço Maquinaria.

 

João Paulo Cuenca escreveu algumas palavras sobre MATA-ME DE PRAZER na sua coluna na Folha

 

Um pedaço do continente descola-se do mundo depois de um terremoto e fica à deriva pelo oceano. O cataclismo leva os animais da selva e do zoológico a vagar soltos pelas ruas. Multidões tiram a roupa e, num transe dionisíaco, começam a transar em público. Em pouco tempo, além do pudor abandonam as palavras. Entre orgias com desconhecidos, passam a comunicar-se por sinais. E não apenas: fazendo sexo oito horas por dia, desenvolvem poderes de intuição e dons telepáticos.
Esse apocalipse libidinoso nos é contado por uma mulher muito contida que ilustra sua palestra com imagens e palavras que surgem numa tela –como numa apresentação acadêmica usando Power Point. Ao longo da história, a Sherazade com ares de jovem Anna Magnani mistura-se com o que narra e, entre estudos de caso e reminiscências de infância, arranca suas roupas, se suja de terra, quebra objetos de cena, trepa na mesa, urra, grunhe, abandona a civilização e a linguagem. Afinal, transforma-se num ser antropomórfico: goza como uma deusa Kali e se contorce como um bicho. Um corpo delirante e febril que tem uma ave no peito e um leão no ventre.
Durante o solo final, as arquibancadas do teatro levantam-se um palmo acima do chão. É raro ver uma obra aproximar-se dos limites da representação e da gênese do erotismo usando uma coreografia para transmitir o interdito. A violência desesperada do erotismo, como certa vez escreveu Bataille, traduz-se nos movimentos trêmulos e fragmentados desse vulcão humano. É um “pas-de-deux” de uma só bailarina, mulher-oroboro, mãe e filha de si mesma. E amante das duas.
Quando o espetáculo acaba, a atriz sai carregada dali em posição fetal –um contraponto de fragilidade a permitir que o público levante e as luzes sejam acesas. Contraponto, digo, pois sabemos que não há homem no mundo capaz de conter o tremor de terra que vem das profundezas da mulher.
Esse “tour de force” vertiginoso é de autoria da atriz, diretora e dramaturga Carolina Bianchi, da Cia. dos Outros, ao lado do músico Lucas Vasconcellos. O casal estará nas próximas semanas em “Mate-me de Prazer”, em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro. A cerimônia acontece às terças e quartas até o dia 3 de fevereiro, sempre às 20h